Sepse Wars – Episódio 1: A Ameaça da Disfunção

7 abr

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Em 1992, foi publicado na CHEST a definição de sepse, que cunhava o dogma de que sepse é SIndrome da Resposta Infalmatória Sistêmica associada a um foco presumido ou conhecido de infecção [1]. Em 2001, o American College of Chest Physicians, julgando os componentes da SIRS insuficientes para o diagnóstico da síndrome, desenvolveram os Critérios Diagnósticos para sepse [2]. Em 2012, publicou-se a maior diretriz para diagnóstico e tratamento da Sepse: o Surviving Sepsis Campaign, que incorporava a definição de 2001 para o diagnóstico.

Esse ano foi publicado um novo consenso sobre a definição de sepse. Na prática, isso implica mudança na abordagem inicial ao paciente séptico, bem como na sua classificação. Logo quando você achava que tinha entendido e memorizado a diretriz de 2012 [3] ? Não tema, jovem Padawan! Nesse episódio, vamos compreender melhor o que mudou e, nos seguintes, qual a nova abordagem, seus motivos e o acalorado debate que questiona se as mudanças seriam aplicáveis à nossa realidade ou não.

Pois bem, até 2015, paciente séptico era todo indivíduo que apresentasse um foco -presumido ou conhecido- de infecção junto a dois ou mais critérios de Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica – SIRS.

Caso esse paciente se mostrasse com sinais de disfunção orgânica, ou seja, se a síndrome fosse capaz de comprometer a função dos órgãos sustentadores de vida, o paciente era classificado como portador de Sepse Grave.

E mais: caso a disfunção orgânica apresentada por esse paciente fosse refratária à reposição volêmica e/ou precisasse de aminas vasoativas para manter uma Pressão Arterial Média acima de 65 mmHg, sua classificação era de Choque Séptico [3]. Complicado? Nem tanto, vai! Com essa abordagem, o que acontece na prática? Todo e qualquer paciente com SIRS [4] acaba entrando no (complexo e caro [5]) protocolo de tratamento da Sepse, pois o foco pode ser simplesmente presumido.

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Diagrama 1: SIRS. Adaptado de Angus DC, et al. Crit Care Med 2001;29:1303-10.

 

Tá, mas e agora? O que mudou?

O que mudou é o seguinte: agora, o paciente séptico é aquele que apresenta um foco -conhecido ou presumido- de infecção (até aqui, tudo igual) associado a critérios de disfunção orgânica novos. E como eu vou saber quem tem disfunção orgânica? Utilize o Sequential Organ Failure Assessment Score (SOFA Score) – ‘Escore Sequencial de Falência Orgânica’; esse sistema de pontuação é validado e amplamente difundido, você não terá problemas em aplicá-lo, pois é um sistema bastante intuitivo. [6]

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Tabela 2: SOFA. Adaptado de Singer M, et al. JAMA. 2016;315(8):801-810.

 

Já o paciente em Choque Séptico é aquele que necessita de aminas vasoativas para manter uma Pressão Arterial Média (PAM) acima de 65mmHg e que tem seu Lactato acima do valor de referência (VR) na ausência de hipovolemia.

Pedro, você esqueceu de definir Sepse Grave! Não esqueci não, meu caro Padawan, o fato é que o termo Sepse Grave cai por terra, uma vez que, a partir de agora, entendemos que toda Sepse é grave por definição.

É isso que temos para o Episódio 1 dessa saga. Pegou tudo? Se não, dá uma olhada mais cuidadosa nas diretrizes disponibilizadas aqui no Blog da Sala Vermelha e, se tiver alguma dúvida, fala com a gente! Abraço!

Referências bibliográficas:
[1] Members of the American College of Chest Physicians/Society of Critical Care Medicine Consensus Conference Committee (1992) Definitions for sep- sis and organ failure and guidelines for the use of innovative therapies in sep- sis. Crit Care Med 20:864–874
[2] Levy MM, Fink MP, Marshall JC, et al: 2001 SCCM/ESICM/ACCP/ATS/SIS International Sepsis De nitions Conference. Crit Care Med 2003; 31: 1250–1256.
[3] Dellinger RP, Levy MM, Rhodes A, Annane D, Gerlach H, Opal SM, Sevransky JE, Sprung CL, Douglas IS, Jaeschke R, Osborn TM, Nunnally ME, Townsend SR, Reinhart  K, Kleinpell RM, Angus DC, Deutschman CS, Machado FR, Rubenfeld GD, Webb SA, Beale RJ, Vincent JL, Moreno R; Surviving Sepsis Campaign Guidelines Committee including the Pediatric Subgroup. Surviving sepsis campaign: international guidelines for management of severe sepsis and septic shock: 2012. Crit Care Med. 2013 Feb;41(2):580-637. doi: 10.1097/CCM.0b013e31827e83af. PubMed PMID: 23353941.
[4] Angus DC, Linde-Zwirble WT, Lidicker J, Clermont G, Carcillo J, Pinsky MR. Epidemiology of severe sepsis in the United States: analysis of incidence, outcome, and associated costs of care. Crit Care Med 2001;29:1303-10.
[5] Kumar A. An alternate pathophysiologic paradigm of sepsis and septic shock: implications for optimizing antimicrobial therapy. Virulence. 2014 Jan 1;5(1):80-97. doi: 10.4161/viru.26913. Epub 2013 Nov 1. Review. PubMed PMID: 24184742; PubMed Central PMCID: PMC3916387.
[6] Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, Shankar-Hari M, Annane D, Bauer M, Bellomo R, Bernard GR, Chiche JD, Coopersmith CM, Hotchkiss RS, Levy MM, Marshall JC, Martin GS, Opal SM, Rubenfeld GD, van der Poll T, Vincent JL, Angus DC. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA. 2016 Feb 23;315(8):801-10. doi: 10.1001/jama.2016.0287. PubMed PMID: 26903338.

Mas que coincidência! Hoje saiu o novo Teaser do Star Wars: Rogue One!! Confira com a gente!

Sensacional!

Que a força esteja com você! =)

(sim sabemos que o Obi-Wan Kenobi da foto é do Episódio III, mas, por incrível que pareça, nossos designers não, hahaha, vamos dar um desconto pra eles que as tabelas ficaram bem legais. =P )

2 comentários para “Sepse Wars – Episódio 1: A Ameaça da Disfunção

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