E se a ansiedade vira doença?

19 abr

snoopy

Imagine só como seria ficar a maior parte do seu tempo ansioso…aquela sensação que assombrou você antes das provas de vestibulares, que ainda assombra com relação às provas e escolha de residência e que é a mesma do momento que antecede uma notícia sobre a saúde de um familiar querido. A diferença é que, enquanto alguns se sentem assim apenas em certas ocasiões pontuais, a pessoa com transtorno de ansiedade generalizada (TAG) fica assim quase o tempo todo. Até o fato de ela ter esquecido de passar um recado serve de gatilho para uma noite de sono mal dormida, para certa dificuldade de concentração e para muita irritação – começa a ficar difícil conviver com ela, não acha? E não deve ser tranquilo ter o transtorno.

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“Minhas ansiedades têm ansiedades!”

Ah, mas Laísa, por que eu preciso saber disso? Porque, mesmo que você não faça Psiquiatria, a TAG é uma condição que acomete cerca de 7 a 8% dos pacientes de atenção primária [1]. Ainda não convenci você? Não se esqueça que os pacientes procuram a emergência por queixas ambulatoriais [2]. Pra reforçar a importância, trata-se uma condição que costuma estar associada à depressão major [3].

Antes de tudo, precisamos saber que o diagnóstico de TAG pode ser feito por meio do preenchimento de TODOS os seis critérios citados no DSM-V:

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Tabela 1 – Adaptado de Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th edition

 

Há também um questionário de 7 itens a serem respondidos pelo paciente, que pode ser usado para a avaliação diagnóstica e prognóstica do indivíduo [1]. Dê uma olhada aqui! (Está em inglês).

Aí, você, com sua ansiedade normal, já vai me perguntar: “E o tratamento?” Bem, infelizmente, a terapia medicamentosa precisa de acompanhamento médico regular, não sendo, portanto, algo praticável em contexto emergencial [1]. A título de curiosidade, os medicamentos usados são os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos, entre outros (cheque a referência 3, o Kaplan de Psiquiatria, ou a 1 caso queira se aprofundar).

O paciente pode contar também com psicoterapia, sendo a terapia cognitivo-comportamental a mais estudada e conhecida. Também há benefícios com exercícios físicos [4], técnicas de relaxamento [5], terapias que visam aumentar a tolerância do paciente à ansiedade e medidas de “higiene do sono” [4] .

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Tabela 2. Adaptado de: Stein, M. B. NEJM. 2015

 

Sim, eu também fiquei com esta sensação de que não podemos fazer muito pelo paciente na emergência. Contudo, não custa nada ficarmos atentos e valorizar os sinais que indiquem o transtorno de ansiedade generalizada. Assim, poderemos dizer ao paciente que o que ele tem pode ser tratado, encaminhá-lo à Unidade Básica de Saúde ou a um atendimento psicológico especializado e, é claro, tranquilizá-lo quanto aos sintomas físicos – se você nunca teve palpitação ou insônia, pode se considerar uma pessoa de sorte.

Referências bibliográficas:
[1]. Anxiety Disorder: Generalized Anxiety Disorder. In: KAPLAN; SADOCKS. Synopsis of Psychiatry: Behavioral Science/Clinic Psychiatry. Filadélfia: Wolters Kluwer, 11ª ed, 2015, p. 407-412
[2]. MARCHESE, C.; et al. Anxiety and depressive disorders in a emergency departamento ward of a general hospital: a control study. Emergency Medicine Jounal, v. 21, p. 175-179, 2004
[3]. BALDWIN, D.; STEIN, M. B.; HERMANN, R. Generalized anxiety disorder in adults: epidemiolgy, pathogenesis, clinical manifestations, course,assesment, and diagnoses. 23 jul 2015. <http://www.uptodate.com> Acessado em: 29/03/2015
[4]. STEIN, M. B.; SAREEN, J. Generalized Anxiety Disorder. The New England Journal of Medicine, v.373, n.21, p. 2059-2068, 19 nov. 2015
[5]. RICCHIONE, G. Generalized Anxiety Disorder. The New England Journal of Medicine, v. 351, n. 7, p. 675-682, 12 ago. 2004
Leitura sugerida: HOGE, E. A.; IVCOVICK, A.; FRICCHIONE, G. L. Generalized Anxiety Disorder: diagnosis andd treatment. British Medical Journal, nov. 2012

Vale a pena ver de novo o Show do Charlie Brown e Snoopy!

Que som nostálgico!

Até a próxima, tá?

Não fiquem ansiosos que a Sala Vermelha já já vai estar de volta! =)

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