Guerra Mundial Z(ika): Um Pequeno Grande Problema

19 maio

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Na semana passada, vimos a relação perigosa entre a resposta imune ao vírus da Zika (ZIKV) e a Síndrome de Guillain-Barré.

Neste episódio de Guerra Mundial Z(ika), vamos abordar um tema que vem sendo uma grande fonte de preocupação para todas as futuras mães do Brasil: a relação de causalidade entre a infecção pelo ZIKV e o surgimento de anormalidades fetais, sendo a principal delas a microcefalia.

Em setembro de 2015, pesquisadores brasileiros observaram um aumento no número de crianças nascidas com microcefalia nas mesmas áreas em que o ZIKV tinha sido relatado. Em fevereiro de 2016, mais de 4.300 casos de microcefalia foram registrados [1]. Segundo o Ministério da Saúde, os casos de microcefalia aumentaram cerca de 20 vezes entre os recém-nascidos na região Nordeste do país, área com o maior número de registros da doença [2]. Coincidência ou ciência?

Ficamos com a segunda opção!

“Já não há qualquer dúvida de que o vírus Zika causa microcefalia. Acreditamos que a microcefalia seja, provavelmente, apenas uma parte de uma série de defeitos congênitos.” – Tom Frieden, diretor do Centro de Controle de Doenças (CDC)

Essa afirmação acima foi feita no dia 13 de abril, onde o CDC anunciou que a infecção pelo ZIKV durante a gravidez está relacionada não só à microcefalia, mas também à cegueira congênita, morte fetal e outras anomalias [3].

Macabro, não é mesmo?
Então vamos ao que interessa!

O CDC recomendou que a microcefalia fosse definida como uma circunferência occipitofrontal abaixo do percentual normal para a idade gestacional e sexo fetais [1], ou seja, o tamanho da cabeça se mostra menor do que o esperado para a fase da gestação.

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Essa doença está associada com a diminuição da produção de neurônios como consequência de defeitos proliferativos e morte de células progenitoras. Durante a gravidez, a etiologia primária da microcefalia varia de mutações genéticas a insultos externos, como as doenças infecciosas. Com relação a essas últimas, os fatores TORCHS são as principais infecções congênitas que comprometem o desenvolvimento cerebral no útero [4]. Veja na tabela 1 abaixo quais são elas!

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Como ainda nenhum flavivírus tinha sido identificado como causador de defeitos congênitos, e a última vez que um patógeno infeccioso (vírus da rubéola) causou uma epidemia como essa foi há mais de 50 anos, a maioria dos especialistas teve bastante cautela em afirmar a ligação entre a infecção pelo ZIKV e a microcefalia [5].

“Mas os dados epidemiológicos do surto do ZIKV e a epidemia de microcefalia no Brasil são gritantes!” Concordo… Mas não só de epidemiologia vive o cientista! Uma grande quantidade de pesquisas precisou ser realizada!

Em uma delas, publicada pela revista Science, foram utilizados organoides cerebrais para confirmar essa relação de causalidade. “Organo-quem!?” Calma, vou explicar melhor!

Organoides cerebrais são modelos embrionários de cérebro humano, desenvolvidos a partir da indução de células-tronco humanas [6]. Essas estruturas foram expostas à infecção por ZIKV e observadas por 11 dias in vitro. As taxas de crescimento de 12 organoides (6 infectados e 6 “controle”) foram medidas durante esse período. Como resultado da infecção pelo vírus, a área média de crescimento dos organoides expostos ao ZIKV foi reduzida em 40% em comparação com os organoides-controle [4]. Confira o experimento na figura 2 abaixo!

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Até agora, o ZIKV foi identificado no líquido amniótico e na placenta de fetos com microcefalia, além de no sangue e no tecido cerebral de fetos e recém-nascidos microcéfalos [1,4].

As gestantes que viajaram para áreas onde a transmissão do vírus foi relatada, ou as que residem nesses locais e apresentaram sintomas consistentes com infecção por ZIKV (febre, erupção maculopapular, artralgia, mialgia, etc) [1,2], devem realizar testes diagnósticos para a infecção pelo vírus o mais rápido possível. Se o teste for positivo ou inconclusivo, deve-se considerar a realização de ultrassonografia (USG) fetal seriada e amniocentese para verificar e presença do ZIKV [7].

Um relatório preliminar do Brasil indicou que anormalidades fetais detectadas por ultrassonografia (USG) estavam presentes em 29% das mulheres com infecção por ZIKV durante a gravidez [1].

Como o tema é ainda muito recente e não há um padrão confirmado de alterações, a Sala Vermelha selecionou os achados clínicos mais frequentes na USG, apresentados em importantes relatos de caso, para mostrar a vocês o que os médicos mais têm visto em fetos com microcefalia.

Em um relato de caso publicado pela NEJM (New England Journal of Medicine), foram apresentadas alterações relevantes na ultrassonografia (USG) [2]. Confira na tabela!

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Selecionamos como leitura complementar um excelente artigo da Pediatric Radiology, que revela as principais alterações da doença na Ressonância Nuclear Magnética (RNM)! Confere aqui: Guillemette-Artur, P. et al. Prenatal brain MRI of fetuses with Zika virus infection. Pediatr Radiol, 2016.

Confirmada a relação causal entre a infecção pelo vírus Zika e anomalias congênitas e tendo em mãos as principais alterações aos exames de imagem, os pesquisadores devem concentrar esforços sobre outras questões que ainda não são claras:

  1. Avaliar os riscos relativos e absolutos das crianças que nasceram de mulheres infectadas em momentos distintos da gestação [1,3];
  2. Compreender o espectro completo de defeitos causados pela infecção congênita pelo vírus;
  3. Por último, mas não menos importante, analisar os fatores capazes de modificar o risco de uma gravidez apresentar resultados adversos [5]. Veja alguns deles na tabela abaixo!

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No último episódio da nossa Guerra, vamos focar no diagnóstico da Zika e nas perspectivas futuras dessa infecção que vem mudando o mundo!

Até breve!

Referências Bibliográficas
[1] – Baden, L. et al. Zika Virus. New England Journal of Medicine, v. 374, n. 16, p. 1552-1563, 2016.
[2] – Mlakar, Jernej et al. “Zika Virus Associated With Microcephaly”. New England Journal of Medicine 374.10 (2016): 951-958.
[3] – Dyer, Owen. “US Agency Says Zika Virus Causes Microcephaly”. BMJ (2016): i2167.
[4] – Garcez, P. et al. Zika virus impairs growth in human neurospheres and brain organoids. Science, v. 352, n. 6287, p. 816-818, 2016.
[5] – Rasmussen, Sonja A. et al. “Zika Virus And Birth Defects — Reviewing The Evidence For Causality”. New England Journal of Medicine (2016): n. pag.
[6] – Gogoni, Ronaldo. “Cientistas Desenvolvem Organoides Cerebrais Em Laboratório Pela Primeira Vez”. Meio Bit. N.p., 2013
[7] – Sampathkumar, P.Sanchez, J. Zika Virus in the Americas: A Review for Clinicians. Mayo Clinic Proceedings, v. 91, n. 4, p. 514-521, 2016.

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