Guerra Mundial Z(ika): Identificando o Inimigo

26 maio

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Nos últimos dois episódios de Guerra Mundial Z(ika), conseguimos entender um pouco sobre a íntima relação do vírus Zika (ZIKV) com a Síndrome de Guillain-Barré e com a microcefalia.

Hoje, nossa guerra vai se concentrar no que mais importa nas emergências: o diagnóstico clínico e laboratorial correto dessa doença, que muitas vezes é confundida com outras condições muito comuns no nosso país!

O período de incubação do ZIKV varia de 2 a 12 dias, e apenas 20% dos indivíduos infectados apresentam os sinais e sintomas da doença que, como vimos no episódio 1, podem ser facilmente confundidos com os sintomas da dengue e da chicungunya [1]. Se quiser refrescar a memória, clique aqui e reveja a tabela! Saber diferenciar essas 3 importantes viroses é a primeira batalha a ser vencida!

Focando agora mais especificamente na zika, abordaremos sua suspeita clínica com mais detalhes!

A doença geralmente se apresenta com um início agudo de febre baixa, e os sintomas têm duração de aproximadamente 1 semana [1,2].
A doença deve ser suspeitada quando o paciente apresentar 2 ou mais dos seguintes sintomas listados abaixo:

tabela1

Figura1

Outros sintomas menos comuns incluem mialgias (48%), cefaleia (45%), dor retro-orbital (39%), edema (19%) e vômitos (10%) [2].

O diagnóstico laboratorial é feito pela detecção do RNA viral por reação de polimerização em cadeia em tempo real (RT-PCR) ou pela sorologia do ZIKV.

O diagnóstico por RT-PCR é uma técnica bastante específica e só pode ser realizada quando há viremia, ou seja, quando o vírus está presente no sangue do paciente.
“Mas quando isso ocorre?”
Podemos dizer que a viremia está presente num período de 0 a 11 dias após o início dos sintomas [1], sendo a identificação do RNA viral mais bem sucedida dentro de até 1 semana após o aparecimento da doença clínica [2]. Infelizmente, os resultados negativos desse teste não podem excluir a presença da infecção [1].
Passado o período da viremia, podemos realizar o diagnóstico pela sorologia. Ele envolve a detecção de anticorpos IgM e IgG pelo método ELISA. A soroconversão é confirmada por análise de títulos de IgM e IgG em amostras de soro a partir da fase aguda e da fase de convalescência da infecção, respectivamente [3]. A reatividade cruzada de anticorpos de outros flavirírus, como o vírus da dengue (DENV), é muito comum, e pode dificultar a interpretação dos resultados desses testes [2]. Sendo assim, consideramos positivo se o título de anticorpos neutralizantes para o ZIKV for 4 vezes maior do que o título de anticorpos neutralizantes para o DENV [3].

figura2

Podemos também, através do hemograma, avaliar a presença de neutropenia e trombocitopenia, indicativos de infecção [3].

“Ok, mas quando devemos fazer a investigação laboratorial?”

Devemos considerar o teste diagnóstico para o ZIKV em pacientes nas seguintes situações:

tabela2

Vale ressaltar que a tabela acima é mais apropriada para países e territórios onde a epidemia de Zika ainda não ocorreu, já que, aqui no Brasil, simplesmente TODOS os estados apresentaram casos confirmados da doença [4].

Trazendo um pouco mais para a nossa realidade, a região Centro-Oeste apresenta a maior taxa de incidência de zika. Depois dela, os estados de Mato Grosso, Tocantins, Bahia e Rio de Janeiro são as regiões de maior número de casos registrados da doença, segundo o Ministério da Saúde [4].

Assim, indivíduos que retornaram dessas regiões, ou que residem nas mesmas, teriam indicação para o teste laboratorial.

Digo teriam, pois, infelizmente, no momento, não há sorologia disponível comercialmente para detecção de anticorpos para o ZIKV no Brasil, sendo realizados apenas o isolamento viral e a técnica de RT-PCR, que ainda assim estão restritos aos laboratórios de referência do nosso país [5].

No diagnóstico diferencial da zika, além da dengue e da chikungunya, outras doenças virais ou infecciosas que cursam com febre e artralgia devem ser excluídas, tais como:

tabela3(corrig)

Atualmente, não há vacina nem conduta específicas para a zika.
“Mas, então, como tratar um paciente diagnosticado com a doença?”
O tratamento é, em grande parte, sintomático: repouso, hidratação e acetaminofeno (paracetamol) para a febre e sintomas como mialgia e dor de cabeça. Os anti-inflamatórios não esteroidais, os famosos AINES, devem ser evitados até que a infecção por dengue seja descartada, principalmente para reduzir o risco de progressão para dengue hemorrágica. A necessidade de hospitalização por complicações da doença é incomum, assim como a mortalidade. Uma vez recuperado, o paciente adquire proteção futura a novas infecções [1].

Se vencermos todas as batalhas, podemos dizer que vencemos a guerra!
Exploramos o vírus, suas complicações, seu diagnóstico e tratamento! De que precisamos mais?
Com toda a certeza, de uma vacina! Mas aí já não é mais com a gente, não é mesmo? Cerca de 23 grupos dos mais diferentes países estão trabalhando no desenvolvimento da vacina contra o ZIKV [3]. Vamos aguardar os resultados que estão por vir!

Nós da Sala Vermelha nos comprometemos a trazer para você as últimas atualizações e artigos que forem surgindo sobre novidades desse vírus que tem aterrorizado o mundo todo!

Até breve, soldado!

A gente se vê nas linhas de frente!

Referências bibliográficas:
[1] – Long, D.; Long, B.; Koyfman, A. Zika Virus: What Do Emergency Physicians Need to Know?. The Journal of Emergency Medicine, 2016.
[2] – Baden, L. et al. Zika Virus. New England Journal of Medicine, v. 374, n. 16, p. 1552-1563, 2016.
[3] – Singh, R. et al. Zika Virus – Emergence, evolution, pathology, diagnosis and control: current global scenario and future perspectives – A comprehensive review. Veterinary Quarterly, p. 1-43, 2016.
[4] – Situação Epidemiológica / Dados. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/situacao-epidemiologica-dados-dengue>.
[5] – Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/tratamento-dengue-2>.

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