A JORNADA – Episódio 1

16 mar

A JORNADA

Domingo, dia 31 de julho, 22:00.

Estou deitado na minha cama, olhos fechados, luz apagada. O jaleco, lavado e passado, está dobrado dentro da mochila, junto dele está o estetoscópio.  Esses são mais que instrumentos de trabalho, são símbolos, uma questão de identificação com a profissão; para alguns, são até mesmo troféus. Para mim são dois grandes amigos, me acompanham desde o terceiro ano, quase diariamente. Terceiro ano? Faz tempo, mas parece que foi ontem. Parece que faz tempo, mas foi ontem… Agora estou no quinto, na metade para ser mais preciso. Rumo ao 10º período, que começa justamente amanhã dia 01/08. Não consigo dormir… Já se passou muito tempo? Na escuridão do meu quarto me perco em fluxos de pensamento atemporais… Ansiedade… Medo… Até que enfim chegou! Mas já? Parece que o trote foi ontem! Confuso? Deixe-me explicar: INTERNO! Assim serei chamado a partir de amanhã! Pelos próximos 18 meses essa será a alcunha que me acompanhará, para o bem… E para o mal. Esperei tanto por esse dia, exatos 5 anos e 6 meses, mas agora parece que tudo que eu queria era começar de novo… Eu não sei nada! Deveria ter estudado mais! PARA! Respira e se acalma, vai dar tudo certo… Sempre deu! É a reta final, já vai acabar. Falta pouco tempo pro CRM, para o MEU carimbo, em 18 meses me torno médico! Acabou a moleza, agora é pra valer… Mas… Como assim? Que horas são? 06 da manhã!?!?!?!?!?!?

Levantei, não havia mais tempo, não havia mais como postergar. Agora sou interno. Banho tomado, café pronto, cafeína em altas doses e vamos nessa! A cidade está um caos! Primeiro dia valendo a faixa olímpica! Quanta sorte a minha, todos de férias, eu, interno. Trânsito, tempo perdido, tempo de sono, muito sono! No hospital, mais café, sempre mais, nunca é o suficiente… Gastrite, outra fiel companheira. Fomos apresentados no primeiro ano de faculdade, semana da primeira prova de anatomia… Ah como eu gostava de anatomia… Do formol não, ainda posso sentir os olhos ardendo e aquele cheiro forte que entrava pelo nariz e nunca mais saia. Naquele anatômico aprendi valiosas lições, as quais me serão muito úteis pelo resto da vida. Nesse primeiro rodízio então, nem se fala. Cirurgia Geral, meus primeiros 3 meses pertencem aos “carniceiros”. Não faz mal, me identifico muito com eles, pensamento objetivo. Espero aprender muito, lições que levarei para minha vida de marceneiro… Opa desculpa, ortopedista!

Às 9:30, finalmente começou. São quatro equipes, teremos que nos dividir. Assim o fizemos. Equipe 4, foi a minha designação. Na divisão, uma primeira quebra de paradigma: meus veteranos. O respeitável 6º ano, aqueles mesmo, que se formam em menos de 6 meses. Agora fazemos parte do mesmo “grupo”, somos todos internos, sem distinção. Aqueles que sempre admirei em diversas monitorias ao longo da faculdade são, agora, iguais a mim. Pelo menos até o final do ano. É por pouco tempo.

Equipes divididas, grupos do WhatsApp formados e, voilà, voa lá para a enfermaria porque tem paciente para ser evoluído! E fomos. Duas pacientes internadas sob a responsabilidade da nossa equipe, a 4. Dividimo-nos e mãos à obra! A minha paciente? Era portadora de uma pancreatite que evoluiu com complicações, estava em franca melhora evolutiva. Dei sorte, pude ver a medicina dando certo logo no primeiro dia, no primeiro dia como interno. Sempre sob supervisão, fizemos a evolução da paciente, atualizamos o espelho de exames e fomos liberados. Eu estava exausto, afinal, insônia tinha sido a minha fiel companheira na última noite, dormimos juntos… Opa, não… Não dormimos.

Quando cheguei em casa, nenhum mistério, banho e cama. A cafeína perdeu seu efeito, ou fora mesmo suplantada pelo extremo cansaço de todo o processo do primeiro dia.

Enfim, descanso.

Ricardo Duran Sobral

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