5 Passos para ser um Jedi

14 jul

Você provavelmente já sabe que o eletrocardiograma (ECG) é um exame complementar de mais de 100 anos de história e que ter conhecimentos básicos em ECG pode te SALVAR no seu plantão. Mas será que você sabe mesmo como interpretar e laudar um ECG de forma rápida e precisa? Mais ainda, você sabe traduzir todas as alterações do traçado para o seu paciente? Essas alterações são agudas ou crônicas? Possuem relevância clínica? Já mostramos no último post sobre os problemas que podem te atrapalhar. Inscreva-se no desfibrilando a sua cabeça e entenda o ECG de vez.

“Socorro, mas pra que 12 derivações? Seria tão mais fácil se só existisse uma!”
Aposto que em algum momento esse pensamento já passou pela sua cabeça, não é mesmo? Para muita gente, interpretar corretamente um “eletro” parece ser algo tão difícil quanto ler em japonês e essa ferramenta tão crucial para nossa tomada de decisão passa a ser um ponto de obstáculo e ao invés de ajudar pode até atrapalhar. Basta uma dessas doze derivações mal interpretada que seu raciocínio vai todo por água abaixo.
Se você é uma dessas pessoas que acha que tem um “bloqueio” com eletrocardiograma – ou ainda que treme só de ouvir a palavra bloqueio – pode respirar fundo e relaxar: no nosso mais novo treinamento, a Sala vai te ensinar tudo, PASSO A PASSO, para você chegar no seu plantão não apenas sabendo ler um ECG até mesmo de trás pra frente (não que a gente te encoraje a tentar fazer isso), mas sabendo correlacionar todas as alterações com a história do seu paciente, e usando essa ferramenta incrível ao seu favor.
UFA! A SALA TE EXPLICA…
Para provar que a gente tá falando sério, vamos te dar os 5 passos para tornar-se um Jedi no quesito interpretação de ECG. Assim, se você se sente bloqueado quando vê um eletro, pensa nesse passo a passo como um marcapasso, que vai guiar e ordenar sua jornada, mesmo diante daqueles traçados mais desafiadores.
PASSO 1: Aprenda muito bem a interpretar um ECG normal.
Por mais que pareça óbvio, muitas vezes, interpretar um ECG normal pode ser um grande desafio. Muitas vezes um ECG normal vai compreender alterações eletrocardiográficas em valores ou derivações “toleráveis”, mas, dependendo do momento no plantão, pode bagunçar toda sua linha de raciocínio. Por exemplo, em V1 a onda T pode estar invertida; o supra com padrão masculino permite supra desnivelamento do segmento ST menor que 2,5 mm não característico do supra.
PASSO 2: Aprenda as alterações mais importantes.
Na hora de começar a jornada do aprendizado dentro de uma emergência eu sempre gosto de dividir o que será aprendido pela gravidade e pela frequência que aquilo aparece na sua emergência, logo, os assuntos mais graves e os mais frequentes são os assuntos mais importantes. Com ECG também é a mesma coisa, depois de dominar o ECG normal, vou ficar em aprender as alterações que mais serão pertinentes para o meu dia-a-dia. E qual eu escolho para começar, o mais grave ou o mais prevalente? Primeiro você escolher dominar o que é mais grave *e* prevalente. Por exemplo, dentro de ECG, devido a prevalência da dor torácica na sala de emergência, saber reconhecer as alterações isquêmicas são MUITO importantes, pois, a mortalidade das Síndromes Coronarianas agudas são bem altas, são doenças muito graves. As fibrilações atriais são as taquiarritmias não sinusais mais comuns, além disso, associada a outras patologias agregam risco importante para seu paciente, por isso, dominar uma Fibrilação Atrial é de bom tom, ela será até mesmo mais frequente que as outras taqui e bradiarritmias. Contudo, como as taqui e bradi podem ser alterações eletrocardiográficas graves, você deve sabê-las bem, e assim você vai caminhando, estuda depois os bloqueios fasciculares, as sobrecargas e vai caminhando até realmente dominar um ECG na emergência.
PASSO 3: APRENDA A LAUDAR UM ECG
Antes de aprender a laudar um ECG, você vai precisar aprender a analisar um ECG. Pra isso, vou te deixar uma dica de ouro!
Dica: na hora de analisar seguir sempre uma mesma ordem sequenciada de interpretação do eletrocardiograma.
Nós sugerimos a seguinte ordem a nossos alunos:
1. Analisar o Ritmo (é sinusal?) e regularidade dos complexos QRS.
2. Analisar a Frequência cardíaca.
3. Analisar o Eixo cardíaco (eixo do QRS).
4.  Seguir a ordem das ondas e intervalos do ECG e ir analisando cada um:
    4.1. Onda P – morfologia, amplitude e duração
    4.2. Intervalo PR – duração
    4.3 Segmento PR – desnivelamentos
    4.4 Complexo QRS – amplitude, duração e morfologia (principalmente nas precordiais)
    4.5. Segmento ST – supra e infradesnivelamentos
    4.6. Onda T – morfologia, amplitude e inversões
    4.7. Intervalo QT – duração
Para você ver como é fácil aprender eletro com a gente, aqui segue um vídeo de um trecho de nosso curso, no qual o instrutor Pedro explica como avaliar o ritmo cardíaco.
Agora, o passo seguinte é Laudar! O Laudo do ECG, de forma muito similar ao laudo dos nossos amigos radiologistas, é dividido em duas partes:
Laudo Descritivo, no qual você vai pontuar todas as alterações de acordo com a sequência da análise que você fez. Exemplo:
a) Análise do ritmo e quantificação da Frequência Cardíaca (FC).
b) Análise da duração, amplitude e morfologia da onda P e duração do intervalo PR.
c) Determinação do eixo elétrico de P, QRS e T.
d) Análise da duração, amplitude e morfologia do QRS.
e) Análise da repolarização ventricular e descrição das alterações do ST-T, QT e U quando presentes.
LAUDO DESCRITIVO
Ritmo Sinusal.
FC 85 bpm.
P 120 ms: sobrecarga atrial esquerda.
PR 140 ms.
Eixo QSR entre 0 e 60°.
Surgimento de onda Q de V1-V3.
Supra ST V1-V5 > 2 mm.
Supra ST de aVR e aVL de 1 mm.
Infra ST em DII, DIII e aVF
Padrão QRS de BRD
Laudo Conclusivo: no qual você colocará sua impressão de acordo com os achados encontrados, concluindo um ou mais diagnósticos eletrocardiográficos. Exemplo:
Impressão: IAMCSST de parede ântero-septal com sinais de sofrimento de toda parede anterior extensa. Surgimento de zona de inatividade elétrica em progressão na parede ântero-septal. Imagem em espelho de parede inferior e sinais sugestivos de acometimento de tronco de coronária esquerda.
PASSO 4: APRENDA A CORRELACIONAR O LAUDO DESCRITIVO COM A CLÍNICA DO SEU PACIENTE.
Esse agora que você já dominou o 3 passo, o quarto é moleza. Sabe por quê? Porque o passo quatro nada mais é do que trabalhar cada vez mais o seu Laudo Conclusivo ao final do Laudo Descritivo. Vamos lá, se você já está decolando na descrição das alterações eletrocardiográficas, se está seguro com a clínica do seu paciente, afinal, ela é soberana, concluir se as alterações encontradas tem um significado clínico ou não é apenas um passo pra você.
PASSO 5: Laude 1 ECG a cada plantão e dê pra seu amigo laudador para conferir se está certo.
Para chegar à perfeição, ou pelo menos o mais perto possível dela, só mesmo praticando constantemente, por isso, fazer o exercício completo de laudar pelo menos um ECG por Plantão é o mínimo para você não ficar enferrujado, você precisa manter-se sempre em prática. O estado da arte para o aprimoramento da sua prática está no feedback. Tenha sempre por perto um amigo, professor, rotina ou plantonista mais experiente e realmente bom em ECG. Após ter seus ECGs laudados peça a eles feedbacks e dicas de como você pode manter-se em melhora contínua. Essas dicas são super valiosas não apenas para dominar de uma vez por todas um ECG, mas também para aprender inúmeras habilidades dentro de uma emergência. No início seus laudos não serão excelentes, mas, com a prática e os feedbacks você consegue sim virar um Jedi dos ECGs.
Se você quer aprimorar ainda mais seus conhecimentos, virar um mestre do ECG  e nunca mais olhar para um eletro com pavor nos seus plantões, não deixe de conferir também nosso conteúdo exclusivo do Blog e Youtube.
Um grande abraço,
Raphael Valente

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